O que a inteligência artificial mudou — e o que não mudou — em dez anos a gerir uma pequena empresa.
Quem nunca teve uma empresa pequena imagina que o difícil é a estratégia. Não é. O difícil é que, numa empresa pequena, a pessoa que define a estratégia é a mesma que emite as faturas, responde ao cliente chateado, corrige o erro de quem está de férias e, às onze da noite, ainda tem de perceber porque é que o site deixou de funcionar.
Durante anos, foi assim. E a parte que ninguém conta sobre empreendedorismo é esta: não é falta de ideias que trava uma empresa pequena. É falta de mãos.
O custo real de não ter com quem pensar
Há uma coisa que se perde quando se gere uma empresa pequena e que demorei a identificar com clareza: não é o tempo. É o pensamento interrompido.
Começa-se a olhar para um problema estrutural — o preçário, o posicionamento, aquele processo que toda a gente sabe que está mal — e três minutos depois chega um email que exige resposta hoje. Volta-se ao fim do dia, já sem gasolina. No dia seguinte repete-se. Ao fim de um ano, o problema estrutural continua exatamente onde estava, e não foi por falta de consciência dele.
Numa empresa grande, há alguém a quem passar a bola. Numa empresa de duas ou três pessoas, não há. A bola fica no chão.
O que mudou, concretamente
Não vou dizer que a inteligência artificial resolveu isto, porque não resolveu. Mas mudou uma coisa específica, e vale a pena ser precisa sobre qual.
Mudou o custo de arrancar. Antes, qualquer coisa nova — uma proposta diferente, um procedimento escrito, uma análise que nunca tinha sido feita — implicava partir de uma folha em branco, e a folha em branco ao fim de um dia de trabalho ganha sempre. Hoje, parte-se de um rascunho razoável e o trabalho passa a ser corrigir, cortar e decidir. É um trabalho completamente diferente, e é um trabalho que cabe numa hora livre.
Não é uma revolução intelectual. É a diferença entre uma coisa acontecer e não acontecer.
O que não mudou nada
Convém ser igualmente clara sobre o resto, porque há muito entusiasmo mal colocado a circular.
A inteligência artificial não decide. Posso pedir-lhe que me apresente três hipóteses de preçário, e apresenta. Qual delas assumo à frente dos clientes, e o que acontece à relação com quem está comigo há oito anos se mudar — isso continua a ser inteiramente meu, e continua a tirar-me o sono exatamente como antes.
Também não assume responsabilidade. Quando algo corre mal, não há partilha possível. A empresa é minha, o erro é meu, e o cliente liga-me a mim.
E não substitui o conhecimento acumulado. Aquilo que eu sei sobre o meu setor — porque é que um processo é assim, o que é que aquela entidade vai perguntar, o que é que aquele cliente não vai aceitar — não está escrito em lado nenhum e nunca esteve. Sem isso, o rascunho que recebo é apenas texto bem construído. Com isso, torna-se trabalho útil. A diferença sou eu.
O erro que vejo noutros empresários
Falo com bastantes pessoas na minha situação, e o padrão repete-se: ou acham que isto não é para elas, ou acham que isto vai resolver-lhes a vida. Ambas as leituras custam dinheiro.
A primeira custa competitividade, lentamente, sem dar sinal. A segunda custa mais depressa: gasta-se dinheiro em ferramentas, ninguém aprende a usá-las a sério, e ao fim de seis meses conclui-se que “aquilo não servia” — quando o que não serviu foi a expectativa.
O que funciona, pelo menos na minha experiência, é mais aborrecido do que ambas: escolher uma tarefa chata, automatizá-la bem, verificar o resultado durante algumas semanas, e só depois avançar. Nada disto dá um bom post. Mas é o que fica a funcionar daqui a um ano.
O que levo de dez anos
Se há uma coisa que estes anos me ensinaram, é que numa empresa pequena quase nunca se perde por fazer a escolha errada. Perde-se por não chegar a fazer escolha nenhuma — porque não houve tempo, porque o dia comeu tudo, porque havia sempre algo mais urgente.
A inteligência artificial não me deu um sócio. Mas devolveu-me algumas horas por semana daquelas em que ainda consigo pensar — e, para quem gere uma empresa pequena, isso é mais do que parece.
A pergunta que deixo a quem está na mesma situação: o que é que está parado na sua empresa há mais de um ano, não por discordar da solução, mas simplesmente por nunca haver tempo para lhe pegar?
É quase sempre aí que está o primeiro projeto que vale a pena.
Trabalhamos com empresas pequenas que não têm departamento de nada. Fazemos por si o que já fizemos por nós.