Há uns meses, numa conversa sobre contratações, um empresário disse-me uma coisa que não me saiu da cabeça: “não preciso de mais ninguém, o que eu preciso é que os que estão cá rendam como três”. Disse aquilo a meio caminho entre a queixa e a piada. Só que já não é nem uma coisa nem outra. É literalmente o que está a acontecer nalgumas empresas — e é a razão pela qual toda a conversa sobre “a IA vai roubar empregos” está mal colocada.
Ninguém, na esmagadora maioria dos casos, vai perder o lugar para um computador. Vai perdê-lo para alguém com a mesma formação, a mesma idade e o mesmo currículo, que aprendeu a usar as ferramentas e passou a entregar num dia o que antes demorava três.
O que realmente acontece às profissões
As tecnologias quase nunca matam profissões. Redistribuem tarefas dentro delas, e deixam de fora quem ficou agarrado à parte errada.
O contabilista não desapareceu com o software; deixou de lançar movimentos à mão e passou a ser chamado para decidir. O bancário não desapareceu com o multibanco; deixou de contar notas e passou a vender. Em ambos os casos, houve quem ficasse e houve quem saísse. A diferença nunca esteve na profissão. Esteve em quem aceitou, a tempo, que a parte mecânica tinha acabado.
Por isso a pergunta “a minha profissão vai acabar?” é inútil. A pergunta que interessa é mais incómoda: que percentagem do meu dia é mecânica — e o que é que eu sei fazer quando essa parte desaparecer?
Quem responder “não sei” tem um problema. E tem-no já, não daqui a cinco anos.
Quatro coisas que passam a valer mais
Nenhuma delas é técnica. É esse o dado que costuma surpreender.
Saber formular o problema. Quando executar fica barato, o valor sobe para quem define o que deve ser feito. Uma pessoa que sabe fazer a pergunta certa vale hoje mais do que três que sabem produzir respostas.
Perceber quando está errado. A ferramenta devolve um texto impecável, bem escrito, com ar de verdade — e completamente desadequado àquele cliente. Quem detecta isso em dez segundos é insubstituível. Quem não detecta passou a ser um risco.
Conhecer o terreno. A regulação daquele sector. As manias daquele cliente desde 2014. A razão pela qual aquele processo é assim e não de outra maneira. Nada disto está escrito em lado nenhum, e é exatamente por isso que nenhuma ferramenta genérica o replica.
A relação. Continuamos a comprar a pessoas. Dizer a um cliente o que ele não quer ouvir, e manter a conta, é uma competência que só valoriza à medida que o resto fica automático.
O elefante na sala
Há uma coisa que quase ninguém diz em voz alta nas empresas portuguesas: já há pessoas, na sua equipa, a usar estas ferramentas em silêncio. Não pediram autorização, não contaram a ninguém e não têm qualquer intenção de contar. E há outras que nunca abriram nenhuma.
O que isto significa, na prática, é que a diferença de produtividade interna entre pessoas com a mesma função está a abrir — e ninguém está a medi-la. Quando essa diferença se tornar óbvia, será tarde para quem ficou atrás.
Aqui há uma responsabilidade que é de quem gere, e não de quem executa. Esperar que cada colaborador se forme sozinho, ao domingo, por iniciativa própria, não é uma política de recursos humanos. É uma aposta — e das más.
Uma incoerência que devia incomodar-nos
Trabalho há anos com setores onde renovar competências não se discute. Ninguém acha estranho que um motorista tenha de fazer formação obrigatória e certificada para continuar a conduzir. Aceita-se, agenda-se, faz-se.
Depois olhamos para as funções administrativas, comerciais e de gestão — precisamente aquelas onde a mudança está a ser mais violenta neste momento — e a formação passa a ser “quando houver tempo”. Nunca há.
Não é preciso um plano de transformação. É preciso uma coisa muito mais chata e muito mais eficaz: horas bloqueadas na agenda, todos os meses, para as pessoas aprenderem a usar bem o que já têm instalado. Quase ninguém o faz. É por isso que funciona.
O que eu faria esta semana
Escolhia duas pessoas da equipa com a mesma função. Pedia a cada uma que descrevesse como faz uma tarefa concreta, do início ao fim. E comparava.
A distância entre as duas respostas diz-lhe mais sobre o futuro da sua empresa do que qualquer estudo sobre o impacto da IA no emprego.
Ajudamos empresas a fechar essa distância. Fazemos por si o que já fizemos por nós.